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Asas para os brasileiros

Asas para os brasileiros(*) Delúbio Soares

Há algo mais nos céus que os aviões de carreira”

Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”

Há algo mais nos céus do Brasil que os aviões de nossas empresas aéreas. Há brasileiros que nunca haviam voado em suas vidas. Há gente que reencontra suas famílias no nordeste ou no sul, no centro-oeste ou na amazônia. Há cidadãs e cidadãos que descobriram nos últimos sete anos o transporte aéreo como meio seguro, eficiente, rápido e barato de se locomover em nosso país e vencer suas dimensões continentais. Irmãos que não se viam desde décadas se reencontram em aeroportos abarrotados de gente alegre e emocionada. Há jatos que desligam as turbinas para abraços que se abrem em reencontros tantas vezes adiados. Pessoas humildes disputando as “janelinhas”, descobrindo o branco das nuvens, admirando a “aeromoça”, vendo a imensidão do azul e não escondendo a lágrima que cai na emoção do primeiro vôo. Há menos malas Louis Vuitton a bordo e mais sacolas de viagem e mochilas surradas. Há povo voando.

Durante décadas voar no Brasil foi um luxo. Somente uma pequeníssima parcela da população, o que os sociólogos costumam chamar de “o topo da pirâmide social”, guardava para si o que se convertera em luxo e era inacessível tanto à grande massa trabalhadora quanto à classe média. Longe de exercer um papel de integração nacional – coisa que o Correio Aéreo Nacional, incentivado pelo brigadeiro Eduardo Gomes e com o pioneirismo dos extraordinários pilotos da nossa FAB, já havia iniciado nos primórdios dos anos 30 – a aviação comercial brasileira tornou-se um instrumento de segregação social, de tirania econômica e de atraso.

Tal situação se afunilou após o golpe de 64, quando a saudosa Panair do Brasil – essa, sim, empresa pioneira e inovadora, com grandes serviços prestados à integração nacional e ao Brasil – foi sacrificada em favor da Varig, mancomunada com a ditadura que se instalava, e o monopólio nas rotas internacionais foi estabelecido da noite para o dia, tornando uma simples viagem ao exterior em aventura milionária para qualquer cidadão brasileiro. Foram quase três décadas de absoluta reserva de mercado, até que outras empresas aéreas nacionais puderam voar para o exterior, barateando as passagens e, enfim, abrindo as portas do restante do mundo para milhões de pequenos empresários, estudantes, profissionais liberais, famílias inteiras, turistas, que haviam se tornado vítimas e prisioneiras de odioso monopólio com contornos de segregação social e, também, de exploração econômica nas altíssimas tarifas praticadas.

Hoje isso mudou. Mudou muito. Mudou demais. Há novas empresas, de novos e modernos empresários que apostam num mercado onde se ganha na escala, ou seja, quanto mais pessoas voarem maior será o ganho de suas companhias.

Nos últimos anos, não por acaso os anos do governo Lula, surgiram diversas novas companhias aéreas, de vários perfis, atuando em todas as regiões de nosso país, oferecendo serviços de toda ordem para milhões de passageiros que são agregados a cada ano ao transporte aéreo. E, o avião, luxo dos ricos nos governos recentes, hoje é ferramenta do desenvolvimento nacional e transporte usual da cidadania.

Há números eloqüentes. No mês de fevereiro passado, para desespero dos que fazem oposição ao governo Lula e para alegria dos que apostam no futuro do Brasil, o movimento de passageiros em nossas empresas aéreas cresceu “apenas” 43% em relação ao mesmo mês do ano anterior! Países como a Alemanha, Canadá e Estados Unidos não apresentaram crescimento assim no tráfego aéreo…

A monopolista Varig, que transformava simples viagem ao exterior em caríssima aventura para poucos aquinhoados, já não existe. Mas alguns empresários de muito boa qualidade, modernos, audaciosos, com responsabilidade social e ampla visão de futuro, estão transformando a aviação comercial brasileira em autêntico instrumento de integração nacional e de desenvolvimento econômico. Novas empresas surgiram e avançam ajudando a ampliar o mercado e transformar para melhor a realidade do transporte aéreo. A Trip, de Campinas, apresentou 90% de crescimento na demanda; a carioca Webjet, cresceu 142%; a Passaredo, nascida em Ribeirão Preto, 190%; a Azul, voando com jatos fabricados pela Embraer e consagrados em todo o mundo, 336%. Mesmo as grandes, como a TAM, líder de mercado, cresceu 21,7%, e a GOL, pioneira na aviação de baixo custo e que vem logo em seguida, apresentou expressivo crescimento de 47,9% no período. Poderia substituir todos esses nomes e números por apenas uma frase: o governo Lula possibilitou que o povo brasileiro voasse massivamente pela primeira vez.

A distribuição de renda e a justiça social chegaram à aviação comercial brasileira. As empresas aéreas descobriram o povo. O povo brasileiro sempre quis, mas somente agora pode voar. Tudo isso é obra do governo do presidente Lula. Enquanto governos anteriores gastaram fortunas subsidiando o transporte aéreo para os ricos, salvando empresas elitistas e quebradas, descomprometidas com a integração e o desenvolvimento nacionais, o governo Lula democratiza esse meio de transporte e investe pesadamente na infra-estrutura aeroportuária para dotar o país de terminais de passageiros e de cargas que façam frente à crescente demanda e aos desafios do futuro como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Há muito a ser feito. Temos menos cidades servidas por transporte aéreo do que em 1960! É preciso que as pequenas empresas regionais possam operar em mais e mais localidades interioranas, ligando-as aos pólos de desenvolvimento regional e aos grandes centros urbanos. Não se pode permitir qualquer tipo de reserva de mercado, monopólio ou duopólio, além de incentivar a concorrência e possibilitar que as novas empresas voem em todos os aeroportos, de todas as cidades, fomentando a concorrência e barateando as tarifas.

Nossos aeroportos centrais, como o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e o de Congonhas, em São Paulo, sempre estarão carecendo de mais investimentos porquanto o crescimento de tráfego continue na velocidade dos dias de hoje. Há capitais como Goiânia, uma das que mais crescem em todo o país, com intenso movimento de passageiros e de carga, com instalações muito aquém de suas necessidades e urgência na construção de novo terminal de passageiros, dotando-a de condições de receber, inclusive, vôos internacionais. Todavia, com todos os senões, a aviação brasileira vai muito bem, e o povo é o seu grande usuário.

No domingo passado, em histórica entrevista à Rede Bandeirantes de Televisão, o presidente Lula respondeu de forma respeitosa, tranqüila, elevada e, mais que tudo, com extremo conhecimento de causa sobre todos os temas de nossa atualidade, discorrendo com segurança sobre as questões que lhe foram colocadas diretamente por alguns dos jornalistas mais experientes do país – e todos eles, é bom salientar, sem nenhuma simpatia pelo presidente ou pelo seu governo. Lula, entre as conquistas do povo brasileiro em seu vitorioso governo, lembrou o acesso das camadas mais humildes da população à aviação comercial. E estava coberto de razão.

Como dizia o inesquecível Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”, primeiro grande humorista e critico de costumes no início do século passado: “Há algo mais nos céus do Brasil que os aviões de carreira”. Há, sim, eu vos digo: é nosso povo que cumpre seu destino de voar.

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(*) Delúbio Soares é professor

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