Blog Marcelo Sereno

Características do subsolo carioca precisam ser observadas por engenheiros

Falta de fiscalização garante espaço para obras irregulares em edificações e expõe cidadãos cariocas a situações de risco. O desabamento de dois edifícios e um sobrado no Centro do Rio, na última quarta-feira (25/01), nos faz relembrar casos de falhas em que a má conservação das estruturas, falhas humanas em projetos modificados e não registrados em órgãos competentes e falta de fiscalização vitimaram dezenas de pessoas.
A proximidade com a Baía de Guanabara, o fato do Centro da cidade ter sido aterrado e as construções estarem no que um dia foi água, aliado ao mau estado de conservação e a irresponsabilidade de algumas pessoas que constroem sem uma supervisão profissional, aumenta a probabilidade de um desastre, como afirmou o engenheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-RJ), Antônio Eulálio, que esteve no local do desabamento nesta quinta-feira.
“Uma laje construída fora do projeto, sem impermeabilização pode sofrer uma corrosão e cair e arrastar o prédio todo. Essa obra, por exemplo, não estava registrada no banco de dados do Crea. E, sem essa supervisão de um profissional, pode ter havido uma mudança estrutural e isso ter sido fundamental para a queda”, afirmou o engenheiro.
Se o Crea é responsável pela fiscalização dos profissionais, é a prefeitura que precisa aprovar os projetos e tem até mesmo o poder de veto em caso de descumprimento do projeto original. Porém, mesmo sendo recomendada a fiscalização anual, esse acompanhamento obrigatório nunca saiu do papel e nenhuma lei obrigando essa prática foi sancionada. Segundo o economista Marcelo Sereno, atualmente as fiscalizações, quando ocorrem, são respostas de denúncias de obras sem acompanhamento de técnico.
“Toda a obra precisa do acompanhamento de um responsável técnico, pois qualquer alteração na planta pode mexer com a estrutura das edificações. Não sou técnico nesta área, mas como cidadão e morador do Rio de Janeiro entendo que em cidade litorâneas, como é o caso do Rio, os cuidados com a manutenção predial e a realização de obras precisam ser redobrados”, disse Sereno.
Engenheiros mobilizados pela tragédia que alterou a rotina de quem trabalha na região da Cinelândia, destacam que a manutenção hidráulica e o monitoramento de eventuais problemas de infiltração são importantes para assegurar a conservação das estruturas e prolongar a vida das edificações. Eles chamam a atenção ainda para obras como a Ponte Rio-Niterói, que apesar de ser antiga, foi construída dentro dos padrões europeus e leva em conta a durabilidade das estruturas.
O emprego de materiais de baixa qualidade aliado a ausência de um profissional responsável pelas obras já resultou em tragédias que marcaram a história do Rio de Janeiro. Em 1971, o Elevado Paulo de Frontin desabou e matou 28 pessoas. No ano seguinte, o Supermercado Ideal, em Pilares, o teto desabou vitimando 14 pessoas. Em 1998, o Palace 2 desabou parcialmente,  na Barra da Tijuca e deixou oito mortos. Em 2002 um hotel desabou no Centro e um casal idoso morreu.
Mais recentemente, em 2010 um prédio desabou no Centro e matou quatro pessoas, sendo duas crianças, por causa de uma obra em um edifício próximo. No fim do ano passado um sobrado sem conservação caiu e matou uma jovem, em Jacarepaguá.
Os cariocas que acordaram de luto nesta quinta-feira pedem atenção dos administradores públicos, cobram fiscalização para continuarem saindo para trabalhar com tranqüilidade. Ontem foram prédios que desabaram, no último ano inúmeros bueiros explodiram e assustaram a população e em outubro de 2011 um restaurante explodiu devido a um vazamento de gás e três pessoas morreram.

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